Como toda mulher dramática, impulsiva, polêmica, verdadeira e apaixonada, me envolvo com tudo, muitas vezes com assuntos que até não me interessam ou não irão impactar na minha vida. Mas nos últimos dias eu tive, não apenas uma, mas várias explosões devido ao assunto do momento: o julgamento pelo STF do aborto de anencéfalos.
Como eu sempre faço minha lição de casa, fui pesquisar. Falei com vários profissionais da área médica e li vários relatos de mães que optaram por não interromper a gestação de seus filhos mesmo sabendo que poderiam ser anencéfalos ou acrânicos.
Há muita confusão para o uso destes termos mas todos são categóricos: não existe ausência TOTAL do encéfalo, da caixa craniana ou de qualquer outro osso do crânio. E não há como definir o tempo de vida do bebê após o parte. Pode ser de minutos, horas, dias, semanas, meses ou até anos, como dois casos brasileiros onde os bebês já completaram 2 anos.
Na minha modesta concepção pessoal, enquanto existir um cérebro, mesmo que do tamanho de cabeça de um alfinete, há vida. E não adianta nem tentar comparar com morte encefálica (ou morte cerebral) pois neste caso, há perda das funções cerebrais relacionadas com a existência consciente. Se quiserem realizar esa comparação, então comparem também com paralisia cerebral ou outros danos ou deficiências que dificultem que o ser humano tenha estado consciente.
Muitos não sabem, mas além de eu ter sido professora, eu fui voluntária em várias instituições que cuidam de portadores de deficiência mental em vários graus. Fiz estágios e cursos em diversos locais porque, quando adolescente, eu queria trabalhar com deficientes. E durante esta minha fase, eu conheci Viviane.
O pai de Viviane era professor e a mãe pedagoga. Viviane tinha um irmão, Vitor, que estudava Pedagogia e ela mesmo queria cursar Psicologia. Eles tinham uma irmã mais velha: Vera. Vera tinha por volta de 20 anos e passava 24h por dia em uma cadeira de bebê enorme feita especialmente para ela sob medida, com fralda, comia através de canudinho, não falava e apenas grunhia como um animal selvagem. Vera era enorme, maior que um adulto normal na sua idade. Vera tinha paralisia cerebral. Mas mesmo assim, com todas essas limitações, a família fazia questão que ela participasse de todos os eventos da casa e da família. Eles conversavam com ela como se ela fosse uma pessoa "normal". Aquilo foi uma ducha gelada para mim: percebi que as pessoas podem ser felizes mesmo tendo que suportar uma dificuldade como essa (porque não é fácil, gente, eu sei...). Não deveria ser fácil carregar aquele "fardo", mas eu olhava aquela família tão feliz que chegava a ter vergonha de mim por reclamar dos problemas da minha família, ínfimos perto da dificuldades deles. E eles não eram ricos, no máximo classe média baixa. O dia em que fomos almoçar na casa de Viviane para comemorar seu aniversário, saímos de lá com bateria carregada para pelo menos uns 10 anos.
Eu pergunto, técnica, fria e secamente falando, Vera tinha "vida"? Não, aquilo não poderia ser chamado de vida. Mas ela sorria e muitas vezes. Nunca saberemos se era de felicidade ou reação involuntária, mas aquela família era feliz. E muito feliz. Será que ela tinha vida "consciente"? Então eu faço outra pergunta: se tecnicamente ela não tem vida consciente, então deve ser morta? Percebem o que vocês, que defendem a interrupção da gravidez destes seres humanos, estão dizendo?
"Escolha da mulher..." Olha, que eu saiba ninguém escolhe ter cabelo "ruim", ser gorda, ser feia, ser doente, ter defeito, ser pobre, enfim, NINGUÉM escolhe. E se uma mulher tem o direito de "sofrer" porque está gerando um bebê que pode durar de segundos a anos, não se sabe, por que o bebê, esta vida não tem o direito à escolha? Ninguém tem o direito de decidir sobre a vida de qualquer pessoa. Ninguém é Deus, ou o que seja no que você acredita, na força divina, de Buda, de Satanás, da árvore ou da terra. Não importa se você crê em Deus, se você é Agnóstico, Ateu ou Cético, em alguma força maior do que nós você deve acreditar e essa força é que, por algum meio, controla a vida e a morte, então quem é você, ser humano, para decidir sobre "escolha da mulher"?
"Ai, coitadinha da mulher, vai passar 9 meses com um bebê no corpo para depois vê-lo morrer". Coitado desse pequeno ser que está dentro dela que nem pode responder se quer viver, mesmo que seja apenas "tentar sobreviver...". Porque se há bebês que, mesmo condenados, sobrevivem até os 2 anos, alguma explicação que desconhecemos deva existir. E talvez essa explicação não esteja ao nosso alcance. E talvez não nos seja permitido, pela nosse mediocridade, entender porque uma bebê perfeito pode morrer segundos após uma gestação e parto perfeitos ou como um bebê todo defeituoso possa sobreviver por tanto tempo. E por que nascemos doentes, com problemas e defeitos? Por que as pessoas "boas" às vezes morrem de forma estúpida e precocemente? Por que alguém que nunca fumou ou conviveu com fumantes pode ter câncer no pulmão enquanto um que fuma 3 maços de cigarros por dia há 30 anos tem o pulmão pefeito?
Eu não posso responder a essas perguntas...
Eu tive 3 abortos espontâneos. No último deles tentaram recolher restos fetais para analisarem as causas do aborto mas não chegaram a nenhuma conclusão. Eu amo crianças e meu maior sonho sempre foi ter um filho. Sim, eu posso adotar, mas meu sonho era ver minha barriga gigante com meu filho crescendo dentro e eu podendo passar a mão sobre ela.
No primeiro aborto, naquela época, estava meio que "na moda" mães jogarem seus filhos em latas de lixo denrto de sacos pretos. Me recuperando do aborto em casa, eu me lembro em assistir aos telejornais sob lágrimas: "Por que eu, que tanto quero ser mãe, perdi meu bebê, enquanto essas mulheres que podem gerar filhos, os jogam no lixo como um papel higinênico usado?" E não foi apenas uma vez, foram três.
Depois destes acontecimentos, vários ginecologistas e genetiscistas tentaram me explicar que a maioria das causas de aborto natural são decorrentes de má formação. Meus exames sempre eram normais e eu sempre me cuidava, não havia outra explicação. Num dia eu fazia uma ultrassonografia perfeita e no dia seguinte eu estava perdendo sangue... Mesmo assim, minhas gestações nunca passaram de 13 semanas.
Olha... eu não queria saber se meu filho iria nascer "defeituoso", eu iria amá-lo do mesmo jeito, mesmo que ele não vivesse por tanto tempo, mas eu queria sentí-lo, cheirá-lo, pegá-lo no colo e amá-lo. Foi difícil. Durante muitos anos, nos quais convivi com essa dor, não desejo a ninguém. Não havia o que me dissessem que pudesse me consolar, eram MEUS filhos, estavam dentro de mim.
Atualmente eu consigo manter o controle, mas hoje, não sei porque, não consegui controlar às lágrimas. Talvez porque tenha lido pessoas defendendo o direito de escolha das mulheres, mas não optando pelo direito à vida. Talvez porque eu tenha pensado nesses anencéfalos ou acrânicos que sequer terão uma chance se a interrupção da sua gestação for autorizada. Inocentes, simples incoentes. Ou talvez porque eu sei como esse mãe poderá se sentir daqui a uns anos se ela pensar na possibilididade remota de que seus filhos poderiam ter sobrevivido, mesmo que por um curto tempo. Porque a gente muda, a cabeça da gente muda.
Eu tive um cachorro muito amado que há 2 anos foi diagnosticado com câncer numa região delicadíssima. Consultei vários veterinários e todos foram categóricos no sentido de que eu deveria autorizar a Eutanásia e assim nós o fizemos. Mas durante meses, diariamente, eu chorava pensando se realmente não hava uma alternativa, uma outra opção. Não havia, eu sei, mas durante muito tempo eu carreguei comigo essa dor e esses questionamentos, além de uma enorme sensação de culpa, mesmo sabendo que fiz o correto e o melhor, não havia outra alternativa para o caso dele.
Daí eu penso: se eu me senti assim com um cachorro, como eu me sentiria se fosse um ser humano, sangue do meu sangue, fruto de mim, que foi gerado e estava crescendo dentro de mim? Como essas mãe se sentirão tendo conhecimento de casos de bebês cujas mães optaram pela vida e hoje sovbrevivem? E a culpa?
A culpa é um sentimento para o qual não tem cura. Você pode até vê-la com uma imagem esfumaçada mas nunca irá esquecê-la de vez.
Não é não concordar com a opinião contrária, é tentar fazer essas mulheres que tanto lutam por liberdade e pelo direito à escolha que essa não é uma questão de escolha. Direito à escolha é quando todos os envolvidos podem optar e quando não significar a morte de uma vida.
Não é não concordar com a opinião contrária, é tentar fazer essas mulheres que tanto lutam por liberdade e pelo direito à escolha que essa não é uma questão de escolha. Direito à escolha é quando todos os envolvidos podem optar e quando não significar a morte de uma vida.
Diga sim à vida, mesmo que ela não seja perene ou que dure apenas o breve espaço de um suspiro.
Recomendo a leitura de dois blogs com relatos de mães que optaram pela NÃO interrupão da gestação, em alguns dos casos, os bebês sobrevivem até os 2 anos de idade
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